tenho razão de te acusar.
houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora,
detonaste o pacto.
detonaste a vida geral,a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos da obscuridade.
sem prazo,sem consulta,sem provocação
até ao limite das folhas caídas sem cair.
Antecipaste a hora
teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o acto sem continuação,o acto em si,
o acto que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos,nem isso,voz
modelando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim,tenho saudades.
Sim,acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
porque o fizeste,porque te foste.
Drummond de Andrade





